VIC, a formiguinha - Por Maria das Graças Melo


Vic, a formiguinha que gostava de todos os animais, ficou muito amiga da jovem cigarra Oli, e, por isso, sempre conversava com ela e a advertida para não cantar tanto, porque ela poderia adoecer da garganta e também corria o risco de se esquecer de suas obrigações mais importantes que lhe rendiam o sustento de cada dia. A cigarra Oli tinha uma grande admiração por sua bondosa amiga Vic, e procurava ouvir seus conselhos e repassá-los para suas irmãs, irmãos e demais parentes e amigos do reino cigarral.

A irrequieta Vic também passou a ser uma grande amiga da jovem preguiça Lien. E, como sua melhor amiga, lhe dava bons conselhos para o enfrentamento da selva, onde as coisas estavam, a cada ano que passava, se tornando mais difíceis. Tinham até de se preparar para as queimadas que já não eram raras, como se houvesse uma humana ação orquestrada para dizimar todo aquele verde tão encantador. Uma coisa terrível! Costumava dizer para a preguiça Oli. E contava-lhe histórias de pobres animais que haviam perecido vítimas de crueis e insensatas queimadas, especialmente os répteis, a exemplo de tartarugas e jacarés, de passos mais lentos do que a corrida das chamas. Pobres animais, não lograram êxito em sua fuga! E nessa incumbência que abraçara com a competência dos fortes e o valoroso senso dos humanistas, vivia a socorrer, a ajudar com ações e bons conselhos os seus amiguinhos da selva.

Vic estava tão conhecida na selva, pelas suas boas ações e seu nível de conhecimento, de visão de mundo, que até conselho para os adultos ela já chegara a dar. Mesmo assim, vivia preocupada com seus irmãos de fauna e achava que ainda havia muitos problemas com muitos deles, e se nada fosse feito, toda a fauna poderia cair em extinção, assim como a flora.

Em um certo dia de muita fumaça, Vic, com ares de extrema preocupação, saiu pela floresta para ver como se encontravam os amiguinhos que tanto estimava. Do lado onde ocorreu uma queimada devastadora, ela ouviu tosses insistentes, insistentes porque praticamente não paravam.

Curiosa e também preocupada, ela procurou investigar de onde vinham mesmo aquelas tosses e que animais estavam a tossir tanto. Não precisou andar muito, para encontrar várias preguiças a tossirem sem trégua; um cenário que parecia uma grotesca orquestra da tosse. Avistou sua amiga preguiça Lien, chamuscada pela fumaça e tossindo bastante, já estava até rouquinha. A jovem formiga Vic ficou muito triste com tudo aquilo que estava a presenciar. Triste quadro, pobres preguiças, como devem estar sofrendo, pensou a formiguinha. E viu que a preguiça mais novinha, a caçula da família de Lien, morrera de tanto tossir. Então perguntou o que ocorrera por ali para deixar todos naquele estado desesperador. Lien, sua amiga preguiça, a mais articulada de todos, porque sabia conversar e interagir com todos os animais da floresta, falou que acordaram por volta das dezoito horas para comemorar o aniversário de um ano de vida da preguicinha que agora estava morta. O problema é que todos beberam um pouco de chá, mas o chá era de uma erva muito calmante e a preguiça-rainha, um pouco desatenta, ou talvez porque está com problema de visão, o preparara muito forte. Assim todos dormiram em profundidade e não viram quando o fogo começou na floresta, por isso não tiveram tempo de procurar um abrigo longe da fumaça doentia.

A formiguinha, então, falou: - Entendi e como entendi, amiga! Mas vocês todos, a começar pela rainha-mãe foram muito imprevidentes, pois sabem que sem tomar chá vocês já costumam dormir muito, mesmo assim não pensaram nem um pouco ao tomar um chá tão forte, um chá que aguça o sono? Por acaso vocês desconheciam os perigos das queimadas nessa época do ano, para agirem dessa forma? Lien, desculpe-me por ter falado assim, como se estivesse muito chateada com vocês, mas é que não me contive.

A sua amiga preguiça, vermelha de vergonha, respondeu com os olhos a lacrimejar: - Entendo perfeitamente sua reação, amiga Vic. Sei o quanto você se preocupa com a gente, mas confesso que, em verdade, todos sabíamos dos riscos a que há muito tempo estamos expostos, mas, infelizmente, adoramos uma boa soneca.

Incrédula, a formiga respondeu: - Desisto, amiga, e retornou ao formigueiro, fumaçando de raiva. Sua raiva era tão grande que suas anteninhas não paravam. Mas depois que chegou no formigueiro, olhou para sua gente muito cheia de ação e bastante organizada, todos sempre dispostos a trabalhar e fazer tudo da melhor forma possível, teve uma ideia repentina: ela iria organizar uma competente ação em conjunto com muitas irmãs e irmãos do reino das formigas e descobrir uma forma estratégica para ajudar as pobres preguiças, pois elas não tinham culpa de ser assim tão dorminhocas, certamente nunca lhes ensinaram a viver nesse mundo em que se precisa todo dia lutar pela vida. E pensou: - A primeira coisa que vamos fazer é arranjar uma forma de ensinar as preguiças a trabalhar para não morrerem de fome. Assim, elas vão aprender que o trabalho – desde que bem organizado e em tempo razoável – será prazeroso e traz muita coisa boa, e enquanto estiverem trabalhando, não vão dormir, outra coisa boa. Com o tempo, elas aprenderão a viver de forma mais adequada e próspera. E nessa empreitada de tentar ajudar as preguiças, a trac ejar o melhor plao, a formiginha passou a noite sem dormir, pois insistia em encontrar as ações mais efetivas para resolver o problema das preguiças, principalmente lhes ensinar a se defender de perigos e de predadores da floresta, e, com tudo isso, lhes possibilitar uma vida mais digna.

No dia seguinte, em reunião com as formiguinhas líderes do seu reino e dos reinos vizinhos, mesmo aqueles que não eram assim tão congêneres, ela conseguiu, em consenso, um grande plano de ajuda. Criou o Mexa-se amiga preguiça.

O plano foi apresentado aos seus destinatários e foi aceito com muita boa vontade por todos os integrantes da Nação Preguiça e, partir dali, tudo mudou para melhor no pequeno reino do bicho preguiça, que até mudou de nome: de reino Soneca passou a chamar-se reino Motor. Fim...


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2020 Domingos Pascoal

Aracaju, Sergipe