• White Google+ Icon
  • Twitter Clean
  • facebook

2020 Domingos Pascoal

Aracaju, Sergipe

Perdas e ganhos - Por Maria das Graças Melo


Acordam-no os raios do sol, ele vai à luta. É mais um longo dia de labor sob a quentura do astro-rei, e que haja saúde, pois tem muitos filhos para criar, ninguém mais lhe dá o pão, todos dependem de seu trabalho e ele do patrão! O tempo passa, suas pernas cambaleiam, doe-lhe

todo o corpo, foi-se precocemente a juventude e todo o vigor e higidez daquele homenzarrão de outrora. A coluna curvada por conta do manejo da enxada, parece impelir o pobre homem a beijar o chão, que de vez enquanto deixa cair sementes de milho e de feijão, para mais tarde vir a colher toda aquela produção, semeada no solo ainda tisnado pela queimada e agora ligeiramente umedecido pelo suor que brota de sua face sexagenária. Aperta-lhe uma fome que não fora convidada em sua barriga sanfonada. Sob uma rala sombra do jucazeiro mastiga o feijão com farinha e fiapos de carne seca. Meio copo de água, à temperatura ambiente, sacia-lhe a sede. Ele pensa na esposa, nos filhos, todos ainda adolescentes, escuta o canto tristonho de um canário e pensa nos folguedos de sua infância, e povoa-lhe o pensamento a vida feliz do jovem que fora no passado. Que tempo bom! Tempo de festas, tempo em que, embevecido com um presente de glória, não sentia preocupação alguma com o futuro, deixando ser tragada pela correnteza do prazer momentâneo toda a fortuna que recebera de seus pais, até mesmo o sítio de sua família secular, restando-lhe, ao passar dos trinta anos, apenas saúde e força de trabalho, agora frágeis com a chegada dos sinais da velhice. Sua vista está opaca, já não contempla a natureza com a sensibilidade de antes, mesmo porque as cores parecem distanciadas e seu coração está cansado, tão cansado que posta-se fechado a doces emoções. Ele reflete sobre tudo o que fez, suas conquistas e perdas, sente tudo empatado, e, sem nenhum lucro, ele passa sua mão trêmula pelo rosto a limpar o suor que ali se aninha, e sente a quentura de um líquido salobro e incontido, e constata que está a chorar. Lembra-se dos filhos em casa, da esposa a catar o feijão para o almoço, e tem mais um fiapo de coragem para retornar ao trabalho. Curva-se ao manejar a enxada e semeia mais um eito de terra, a pedido do patrão.