A escrita de Estácio Bahia Guimarães - Por José Anderson Nascimento

A Academia Sergipana de Letras amanheceu, hoje, surpreendida com a notícia do falecimento do poeta Estácio Bahia Guimarães, que ocupou a Cadeira Nº 29 do Sodalício, vítima de complicações pós-operatórias, deixando saudades entre os seus pares, sua família e admiradores. A sua imagem estará sempre marcada no Sodalício sergipano e nos diversos centros culturais em que atuava, com a lembrança da sua palavra culta, participativa e solidária. Quando o recebemos na Academia, numa Sessão Solene do Cenáculo, realizada no dia 25 de outubro de 2001, destacamos, no nosso discurso, as suas qualidades literárias que justificavam o seu ingresso no ambiente literário. Para reforçar as nossas palavras, valemo-nos dos ensinamentos do acadêmico Afrânio Coutinho, que ocupou a Cadeira Nº 33 da Academia Brasileira de Letras, ao anotar que “o artista literário cria ou recria um mundo de verdades que não são mensuráveis pelos mesmos padrões das verdades factuais . Os fatos que manipula não têm comparação com os da realidade concreta. São as verdades humanas gerais, que traduzem antes um sentimento de experiência, uma compreensão e um julgamento das coisas humanas, um sentido da vida, e que fornecem um retrato vivo e insinuante da vida”. Dessa estirpe bem-aventurada, emergiu o poeta homenageado, misto de anjo e de rouxinol, revelada nas suas manifestações poéticas e nas suas produções literárias e artísticas, pontilhadas em livros, revistas e em jornais. Na escrita de Estácio Bahia Guimarães é difícil escolhermos a criação entre as suas produções literárias e criações artísticas, a que preferimos. Em Respingos, a sua primeira obra publicada, o poeta reuniu uma centena de poemas, artisticamente ilustrados com os seus bicos de pena, mostra o amadurecimento do pensador. A obra está dividida em seis partes: respingos, marinhas, visões, eixos, temas e formas e sonetos. É uma composição poética moderna, de maneira conjunta e integrada no seu verso a verso, inclusive com alguns sonetos, o que não comprometem a contemporaneidade da forma e do estilo em seu todo. Na verdade, essa naturalidade de expressão que caracteriza o estilo de Estácio Bahia Guimarães, sobretudo quando a construção da sua poesia reforça, também, a unidade temática, não está, por assim dizer, diretamente vinculada a regras acadêmicas, senão, e às vezes, com o propósito de enxertar a esperança e o amor, como no Soneto do Amor Maior: Há em ti, um amor maior/despontando como algo grandioso/majestoso sol a mostrar-se luminoso/delicada lua a banhar-me em candura/Há em ti, sobretudo,/um amor tagarela, bem falante/a sonorizar este meu viver mudo/despertando-me para um mundo amante/Maior amor, sei eu não existe/que mais mostre o que mostra o teu/chama eterna que tão terna se acendeu/Fazendo-me sentir leve como pluma/no suave corpo de um colibri/ao sentir que sentes, este amor por mim. Respingos é um livro de amor. A homogeneidade das imagens revela imagens líricas, quase uma saudação de amor e esperança. O conteúdo de modo geral, acentua o homem simples, sensível e humano que procura buscar a paz, acreditando em Deus e no próximo com veemência. Em outro momento da sua poesia encontramos um forte sentimento de solidão, muito característico dos poetas que, por suas vezes, sentem-se solitários, incompreendidos na sua concepção da vida e do mundo, como se revela no poema Solidão, onde se vê a marcante influência do poeta Mário Cabral. O autor foi também influenciado pelo poeta Santo Souza, com quem mantinha fortes laços de amizade. Mostra nessa quadra poética vários aspectos da sua poesia simbolista. O livro "Tecidos de Arco-Íris", é composto com poemas repletos de ternura, reveladores do seu permanente estado de lirismo. Alguns têm o sabor da íntima saudade como a confirmar a sua incoercível vocação lírica. A explosão das suas emoções está registrada nos poemas Ternura, Passarela de Estrelas e Barco de Ilusões. No seu último livro de poemas Pedras e Avencas, Estácio Bahia Guimarães pura, cristalina, clara. Em seus versos livres o poeta exibe o produto final dos seus sentimentos. Aliás, ao apresentar uma breve resenha publicada na Coluna Educação, de Matheus Batalha, no Jornal da Cidade, a confreira do Movimento Cultural Antônio Garcia Filho, anotou: Pedras e Avencas é o mais novo livro de poemas do poeta Estácio Bahia Guimarães, que compôs o seu livro em duas seções, cada uma com cinco capítulos, assim dispostos: Pedras da cidade, Pedras noturnas, Pedras das lembranças e saudades, Pedras e reflexões e Avencas da natureza, Avencas da natureza romância, Avencas românticas, Avenca marinha, Avencas e sonetos e Avencas sevillanas e madrileñas, poemas líricos, românticos e cheios de ternura e de amor. Essa coleção de admiráveis poemas está ilustrada com vinhetas coloridas e matizadas de autoria do poeta, criadas para adornar cada página do livro, além de reproduções de pinturas que representam movimentos das artes plásticas e decoram as galerias de artes, produções que aguçam os olhares dos seus espetadores, desde as épocas em que foram levadas ao publico e por ele apropriadas, diante dos momentos temáticos em que foram concebidas, mundializando-se, como Guernica, de Pablo Picasso e o Grito de Munch, ou sócias como Cidade, de autoria do próprio autor, ou Meninos de rua, de Florival Santos, A mulher de azul e Cabeça de pescador, ambos do consagrado pintor sergipano Álvaro Santos, estão no seio de outras importantes contribuições artísticas. Nessa apreciação entre o poema e a arte está a fotografia de Ana Clara Franco Guimarães Pinto, ilustrando o poema Crepúsculo. Já o poema Ciranda, está acompanhado da pintura Brincando de roda, um exemplar da arte de Ana Maria. Pedras e avencas se insere no campo dos mais notáveis livros de poemas cheios de lirismo, uma exemplar sonoridade, um dos atributos indeléveis da poética de Estácio Bahia Guimarães. A fortuna crítica está marcada nas palavras de Ana Maria Fonseca Medina e de Carlos Britto, além do Imortal Santo Souza, todos da Academia Sergipana de Letras, Pedras e Avencas é um livro que deve ser lido, interpretado e divulgado como uma das joias da Literatura Sergipana.” Além da produção poética, Estacio Bahia Guimarães notabilizou-se como cronista, contista, jornalista e escritor, publicando o livro Justiça do Trabalho: evolução histórica no Brasil e em Sergipe e, ultimamente, o livro Falando dos outros e de outras coisas. Como se vê, Estácio Bahia Guimarães se incorporou entre os poetas e escritores contemporâneos, com uma escrita leve e repleta de conceitos cristãos, solidários e democráticos, sempre defendendo os princípios da cidadania e dos direitos humanos, o que dignifica a Academia Sergipana de Letras. JOSÉ ANDERSON NASCIMENTO

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