Domingos Pascoal de Melo o semeador de Academias Literárias - Obrigado por ter vindo viver aqui!

Domingos Pascoal nasceu no “Cantodohamaistempo”, um recanto de povoado, no município de Groaíras, antes chamado Riacho dos Guimarães, no Ceará, que não tive ainda o prazer de conhecer. Mas cheira-me a colônia de retiro espiritual de mosteiro beneditino da baixa idade. Ou a uma sonora redondilha menor.

Era um pequeno feudo medieval onde viviam senhores (Paulo Malaquias, Nico Feijão, Melquides Ximenes, Raimundo Alves) e servos meeiros lavrando a terra, como os pais de Pascoal, Sebastião Silivero e sinhá Lídia. Bastião e Lídia possuíam nobres sobrenomes: Melo, Ximenes e Feijó, mas nada sabiam dos brasões e dos dobrões antepassados. Colhiam chochas safras que davam mal para o feijão, a farinha e o óleo de caroço de algodão, que era a mistura no prato minguado da filharada gulosa.


Em 1958, uma seca assolou o Ceará, matando animais e vegetação. As pessoas foram salvas da morte pelo Governo, que abriu frentes de trabalho. Seu Bastião, como todos os moradores dos cantos, cavoucaram a terra, derribaram montes, bateram pedras, de sol a sol, em troca do pão. Pascoal, com oito anos, foi fichado na turma de seu Cornélio Badaró, na função de melador de eixo de galinhota. No rangido do ferro, o pincel atento o besuntava de óleo queimado, amaciando o chiado.


Groaíras é a capital brasileira dos garçons, título que carrega desde quando um jovem, fugindo das secas e da falta de oportunidade, migrou para o Rio de Janeiro em busca de sobrevivência. Nos anos 50 do século passado, até antes. Deu-se bem em um restaurante chique. A notícia chegou a Groaíras. Camisas brancas e gravatas borboletas, em revoada, arribaram das palmas das carnaubeiras e pousaram nas mesas de regalo farto do Sul do pais.


Seu Bastião seguiu o voo das aves atrás de melhoras. Depois retornou e foi embora outras vezes. Sinha Lídia, agricultora e costureira, em Groaíras, cuidava do rebanho e ensinava: “Meus filhos! Não há outra saída pra vocês, é caneta ou enxada. Escolham!”. Mas como achar caneta se a enxada estava em todo o canto escravizando-os? Iraildes, seu Cordeiro e Osenir, professores ocasionais de poucos dias e letras em uma escola volátil... Livros, cadernos e canetas caros além da conta. Decifrava jornais velhos que lhe caia às mãos.

Em Sobral havia escolas, foi arriscar. Passou um ano como bodegueiro na ilusão de que o tio o matriculasse no Grupo da esquina. Outro tio prometeu-lhe pagar o curso de datilografia, mas deu-lhe um caminhão de lenha para carregar e descarregar sem descanso. Outro, nas madrugadas frias, fazia-lhe colher camarana dentro do charco imundo para alimentar as vacas de leite mantidas à porta. Onde achar tempo para mais algo? Retornou a Groaíras sem diploma. Sinha Lídia foi ao padre Raimundo Cleano: pediu um emprego e uma vaga na escola paroquial Pio XII. O filho ganhou baldes e esfregões; como eram amplos os corredores sombrios da escola Paroquial!


Aos dezoito anos, deixou a mãe, os irmãos pequenos, a namoradinha que era uma Graça, e foi ao Rio de Janeiro ser garçom, na companhia do primo Celestino que viera visitar os pais. Adeus máquinas de datilografia, cadernos de escrever, livros de leitura, que quisera tanto!

O primo não conseguiu mantê-lo escondido sob a cama na pensão da feroz Zuleica. Pascoal foi escorraçado em uma noite chuvosa a cabo de vassoura. Morou nas ruas, dormiu nos vagões de trem, comeu sobejos... Foi foca de jornal, lavador de pratos, varredor de salão, aprendiz de garçom, garçom de luxo, gerente do restaurante com poder de empregar todo groairense que chegava ao Rio.


A baioneta afiada do capitão ciumento jogou o garotão nas ruelas nevoentas de São Paulo. Recomeços, serviços extenuantes, exaustivas aulas noturnas para atender ao conselho da mãe distante.


Viva Fortaleza tão grande e tão tirana também! Cobrador, balconista, taxista, professor. Supletivos, madurezas, universidade. O anel de doutor que tanto buscou e o de noivado com a mesma Graça da infância.


Havia tanto lugar para a esposa escolher! Pascoal veio junto a Sergipe. Longe dela jamais! Enquanto Graça julgava conflitos no tribunal, ele advogou, foi comerciante, empresário, industrial... As bicicletas pedalavam sucesso. Instituiu torneios, conferiu troféus, criou a Federação Sergipana de Ciclismo que produziu um campeão olímpico.

Cursos, concursos, vitórias nem sempre. E veio emprego estável que lhe deu aposentadoria e condição de segurar a mão dos que começam a vida como ele começou.


Entrou na Academia Sergipana de Letras e partiu, de bandeira desfraldada, criando núcleos de saberes, centros de cultura, academias de letras (há em torno de 30 novas hoje). Seu carro é um bólido varando Sergipe de lado a lado, benzendo o São Francisco e o Real, plantando sementes, regando as lavouras da leitura, da escrita e da dignidade. Noite e dia. Pistas asfaltadas ou veredas enlameadas.


Hoje, Domingos Pascoal e Melo está com 69 anos de idade, 31 que vive aqui em Sergipe.


É formado em Filosofia e Direito, pós-graduado em Gestão Estratégica. Filósofo e escritor. Tem livros publicados que você precisa ler: Experimente Mudar, A Mudança Começa em Você... É conferencista, radialista e jornalista; possui colunas cativas em jornais, sites virtuais e revistas conceituadas.


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“Eu tenho a sorte de conviver com este incansável semeador de academias de letras. Sou seu acólito atento nessa semeadura. Conheço parte de sua vida, desde a origem humilde nos cafundós do Ceará até a luta diária no meu ingrato Sergipe. O que fazer nas estradas longas para o manter acordado ao volante, se não o instigar a contar-me suas aventuras, que dão mil romances? Sigo-o em algumas missões (impossível segui-lo sempre), batendo à porta de escolas, reunindo intelectos esparsos, fazendo esse mundo melhor.”


(Por Antônio FJ Saracura, das academias Itabaianense e Sergipana de Letras) 

 


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2020 Domingos Pascoal

Aracaju, Sergipe