2019 Domingos Pascoal

Aracaju, Sergipe

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DISCURSO DE BOAS-VINDAS AOS NOVOS ACADÊMICOS - ACLA

ACLA - ACADEMIA CAPELENSE DE LETRAS E ARTES

 

DISCURSO DE BOAS-VINDAS AOS NOVOS ACADÊMICOS PROFERIDO EM 09 DE FEVEREIRO DE 2019, PELO FILÓSOFO SANDRO HORA

 

 

NOVOS POETAS E NOVOS PASTORES

 

Prof. M. Sc. José Sandro Santos Hora

 

Senhoras e Senhores, ilustríssimos confrades e confreiras, meus cumprimentos!

A Academia Capelense de Letras e Artes-ACLA, semelhante a outras instituições da nossa sociedade como, por exemplo, uma casa legislativa, uma igreja, um tribunal, etc., também possui seus ritos. Um deles é a feitura do discurso de boas-vindas àquelas e aqueles que ingressam neste sodalício. Desta feita, recaiu sobre mim a incumbência de realizar esse relevante, nobre, singelo e singular rito que o faço com o coração vibrante, o espírito alegre e a alma imensamente regozijada. Atribuí o título ‘novos poetas e novos pastores’ a esse discurso cujo escopo, conforme já dito, é saudar e dar boas-vindas aos novos confrades: professoras Ana Lúcia Gomes da Silva, Isabel Cristina Santana Campos, Maria Otília Cabral Souza e o jovem professor Matheus Luamm Santos Formiga Bispo.

Minha fala está estruturada em três partes. Na primeira parte traçarei um panorama geral dos novos confrades, seus patronos ou patronas e as cadeiras que ocuparão. Na segunda parte falarei das bases e da finalidade que uma Academia Literária nutre. Na terceira e última parte justifico porque atribuí o título ‘novos poetas e novos pastores’ a este discurso, concluindo, portanto, minha saudação aos novos acadêmicos.

Passemos então ao panorama dos novos integrantes deste sodalício.   

Ana Lúcia Gomes da Silva é capelense, filha de Maria Luiza da Silva e Mauro Pereira Matos, casada, mãe, professora e prestadora de relevantes contribuições à educação no nosso município seja na rede estadual seja na rede municipal.

Estudou na Escola Municipal Corina Cardoso Souza, passou pela Escola Técnica de Comércio Sagrado Coração de Jesus, ambas hoje extintas, fez o ensino médio no Colégio Imaculada Conceição-CIC, onde despertou para a profissão que nortearia toda sua vida profissional. Licenciou-se em Letras Português/Inglês pela Universidade Tiradentes-UNIT, e fez pós-graduação em Planejamento Educacional pela Universidade Salgado de Oliveira-UNIVERSO, do Rio de Janeiro.

Lecionou no Colégio Imaculada Conceição, em 1986 ingressou na rede pública estadual como professora no “Edélzio Vieira de Melo”. Ali foi Secretária e Vice-Diretora. Entre os anos 1996 a 1999 foi Diretora da Escola Estadual Irmã Maria Clemência. De 2001 a 2003 foi Diretora Administrativa na Secretaria Municipal de Educação de Capela. De 2005 a 2007 Coordenadora no “Edélzio Viera de Melo”. De 2007 a 2010 Tutora do Curso de Letras oferecido pela Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) do Rio Grande do Sul. De 2008 a 2012 voltou à regência de classe no “Edélzio Vieira de Melo”, onde requereu aposentadoria. Foi ainda Diretora Pedagógica na Secretaria Municipal de Educação de Capela de 2013 a 2016 e tem contribuído imensamente com a ACLA, atuando como Secretária Ad hoc, experiência que, segundo ela, tem contribuído muito para o seu crescimento intelectual.

Ana Lúcia ocupará a cadeira vinte e um (21) da nossa Academia e terá como patrona a irmã Maria Clemência da Costa Lima. Esta baiana de nascimento, pertencente à congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, foi professora no Colégio Imaculada Conceição e, inegavelmente, contribuiu imensamente com a educação em nossa terra, fato que desperta na professora Ana Lúcia identificação profissional, inspiração, exemplo e, por isso, a escolha de irmã Clemência.

Isabel Cristina Santana Campos, capelense, filha de Elia Santana e Manuel Moacir dos Santos Santana, é casada, mãe, avó, professora da rede pública estadual de Sergipe e da rede municipal de Aracaju, acumula vasta experiência na esfera educacional e tem dado grandes contribuições nas suas atuações.

É Licenciada em Pedagogia pela Universidade Federal de Sergipe, com habilitação em Supervisão e Administração Escolar; é Licenciada em Letras Português pela Unit; Pós-Graduada em Educação e Gestão Administrativa pela Faculdade Pio X; Especialista em Educação Especial – Formação Continuada de Professores para o Atendimento Educacional Especializado pela Universidade Federal do Ceará.

Foi Diretora da Escola Estadual Profª Maria Berenice Barreto Alves; Diretora do Colégio Estadual Edélzio Vieira de Melo, premiada em 1998 com o Prêmio Nacional de Referência em Gestão Escolar; Coordenadora Pedagógica do Programa Sergipe Cidadão na Seed – atual Seduc, entre outros; foi Secretária Municipal de Administração na gestão do então Prefeito Carlos Alberto Sobral; desempenhou função de Coordenadora Pedagógica e de Diretora na rede municipal de Aracaju; hodiernamente atua no Atendimento Educacional Especializado no Colégio Estadual Barão de Mauá.

Izabel Cristina ocupará a cadeira vinte e quatro (24) da ACLA e terá como patrona, a brava capelense de Vila Pedras, Maria José de Andrade. Esta estudou no Colégio Imaculada Conceição, foi professora, engajada na área artística, na esfera política, pode-se dizer que Maria José de Andrade foi uma mulher à frente do seu tempo. Segundo registra Denilsa de Oliveira Santos no seu livro Mulheres Capelenses em Destaque, Andrade foi a primeira capelense a concorrer – para o cargo de vereadora – e se eleger para um cargo eletivo no munícipio. Esse espírito inquieto de Maria José de Andrade encontra perfeita ressonância no modo de ser de Izabel Cristina.      

Maria Otília Cabral Souza, capelense, filha de Maria da Purificação Barreto Cabral e José Cabral Neto, é casada, mãe e professora. Formada em Letras/Português pela Universidade Federal de Sergipe, possui duas Pós-Graduações: “Educação e gestão administrativa” pela faculdade Pio X e “Literatura, Cultura e Semiótica” pela Universidade Tiradentes.

Muito cedo iniciou sua vida profissional como professora no Colégio Imaculada Conceição onde também estudou até concluir o curso Pedagógico. Lecionou na Escola Técnica do Comércio Sagrado Coração de Jesus. Em 1988 ingressou na Rede Estadual de Ensino de Sergipe. Lecionou no Colégio Estadual Edélzio Vieira de Melo, onde também exerceu a função de Coordenadora Pedagógica. De 2007 a 2015 foi Diretora da Escola Estadual Coelho e Campos. Tem afeição por pesquisas voltadas para aspectos históricos do nosso município.

Maria Otília Cabral Souza ocupará a cadeira vinte e dois (22) da ACLA e terá como patrona Maria da Glória Mota Cabral. É interessante como alguns pontos das trajetórias de ambas se encontram. Maria da Glória Mota Cabral foi professora, lecionou em várias escolas do interior do município, depois foi transferia para o Coelho e Campos aonde também exerceu a função de Diretora. Atuou na esfera religiosa em atividades na Igreja Nossa Senhora da Purificação. Foi sensível à condição das crianças pobres que não tinham como acessar a instrução formal, lutou bravamente pela fundação do Asilo São José da Infância Desamparada de Capela, portanto, uma mulher extremamente preocupada com o bem das crianças mais carentes da nossa terra. Por isso o lugar de honra escolhido por Maria Otília neste sodalício.

Matheus Luamm Santos Formiga Bispo, capelense, filho de Dernivaldo de Oliveira Bispo e Josefátima Santos Formiga, é um amante das letras e das cores. Mestrando em Educação pela Universidade Federal de Sergipe, Especialista em Gestão Escolar e Educação Empresarial pela Faculdade Jardins, Licenciado em Letras Português e Respectivas Literaturas pela Faculdade São Luís de França, Contador de Histórias, possui interesse de pesquisa científica nas áreas de Literatura e Cultura, Literatura e Ensino, Historiografia da Literatura e Legislação Educacional, Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e Literatura Infantil, com artigos publicados em revistas científicas e anais. Atualmente é Coordenador Pedagógico do Ensino Fundamental Anos Finais, Professor de Leitura Compartilhada e Literatura do Colégio Jardins, Professor de Pós-graduação em Educação nas Faculdades Jardins, FAC e FANEB. As horas vagas são preenchidas com produções de contos e poesias. É autor do livro infantojuvenil Surpresas no Cabelo (2017), autor em antologias poéticas e organizador/autor do livro universitário Literatura – Revelação do Mundo: Estudos e Intersecções (2018).

Matheus Luamm ocupará a cadeira dez (10) deste sodalício cujo patrono é Helvécio Ferreira de Andrade. Andrade nasceu no Engenho Boa Sorte aqui em Capela/SE, formou-se em Medicina e Farmácia pela Faculdade da Bahia. Escrevia com frequência assuntos de medicina e educação para vários jornais sergipanos. Foi militante do Centro Socialista Sergipano, fundador da cadeira quinze (15) da Academia Sergipana de Letras e membro do Centro Literário Educativo. Criou a Cátedra Popular de Medicina Preventiva. Foi importante reformador da Instrução Pública em Sergipe, através da divulgação dos princípios da moderna pedagogia. Um amante das letras e da educação assim como também o é Matheus Luamm.

Feito esse panorama passo à segunda parte do meu discurso.

Provavelmente, a notícia que se tem da primeira Academia advém da Grécia clássica e refere-se à instituição fundada pelo filósofo Platão “pouco posterior ao ano 388 a. C., representando um acontecimento memorável”, naquela época, afirma Giovanni Reale. O que seria a Academia platônica? Pode-se dizer que seria uma Escola com finalidade especial. Nas palavras de Reale,

A finalidade da Escola não consistia na difusão de um saber preocupado com a erudição, mas era a preocupação de, através do saber e de sua organização, formar homens novos, capazes de renovar o Estado. Em suma, a Academia, enquanto Platão viveu, se fundamentou no pressuposto de que o conhecimento torna os homens melhores e, consequentemente, aperfeiçoa também a sociedade e o Estado. Entretanto, embora visando sempre à realização desse objetivo ético-político, a Academia abriu suas portas a personalidades de formação extremamente diversificada e de várias tendências (REALE, 2003, p. 166),

como faz agora a ACLA: um horizonte que se descortina e acolhe as professoras Ana Lúcia Gomes da Silva, Isabel Cristina Santana Campos, Maria Otília Cabral Souza e o professor Matheus Luamm Santos Formiga Bispo.

Vale lembrar que a fundação da Academia platônica se deu exatamente numa atmosfera cultural na qual o homem passou a ser o grande tema objeto de reflexões – e não mais a physis. Nessa perspectiva, várias indagações e questionamentos foram postos. O que é o homem? Qual a sua essência? O que deve fazer para ser feliz? Como deve se comportar na cidade? A partir dessas perguntas várias possibilidades de respostas surgiram. Houve quem dissesse que o homem é na sua essência a alma enquanto parte racional como afirmou Sócrates. Houve quem afirmasse que o homem é animal político por natureza, um ser sociável na sua essência, um animal de palavra e de discurso como destacou Aristóteles. Houve ainda quem dissesse que o homem é animal simbólico como declarou Ernst Cassirer posteriormente.

A verdade, senhores e senhoras, confrades e confreiras, é que só podemos falar do homem, da natureza, da cultura, das letras, das artes, de Deus; só podemos falar da dor, da saudade, da alegria, da pedra no meio do caminho, da sua retirada, da partida, da chegada, da vida, do mundo, da morte, do amor, da vinha... porque, como afirma Arcângelo R. Buzzi, “Estamos na linguagem como o peixe está na água. Nadando, o peixe mora alegre no seu ambiente. Falando, o homem também mora” (BUZZI, 1987, p. 17). Declara Buzzi, “Só o homem fala; só ele é vida que está na linguagem”.

Ora! Como amante da leitura que era e avisado de que o homem é um ser que se abriga na casa da linguagem, em 1934, no Correio de Aracaju, Zozimo Lima, patrono deste sodalício, publicou uma crônica intitulada ‘Capela, terra de sonho’. Nessa crônica Zozimo soltou a alma, deixou livre sua pena e expressou-se do seguinte modo:

“Vocês já foram à cidade da Capela?

Se lá não foram devem certamente conhecê-la por informações.

Estas, porém, digo-o sem exagero e com vanglória justa, estão muito aquém da realidade.

É preciso que se tenha permanecido lá por alguns dias para se encher de encantamento.

Lá estão as mais lindas mulheres de Sergipe, a água mais pura, cristalina do Estado e a brisa mais fagueira do Brasil.

Eu poderia ainda, sem receio de possível contradita, proclamar o seu céu o mais formoso das Américas.

É incomparável o despontar da aurora na doce terra em que nasci.

Os menestréis alados entoam cavatinas vagnerianas nas franças do arvoredo eternamente verde.

Entre os grotões, baixadas e planícies vadeiam rios de águas purificadoras... (LIMA, 2002, p.16).

Ah... como alegram o meu espírito as palavras de Zózimo.

Alegram meu espírito porque na Capela terra de sonhos, pedaço de chão sergipano abençoado pela Virgem da Purificação, lugar de contrastes entre a casa grande e o canavial, entre o barulho do vento que agita as palhas da cana e o afável doce que desta se extrai, abrigo de um povo que não se deixa abater ante os espinhos que antecedem as rosas, em 19 de agosto de 2017, eis que verbo se fez carne, sonho tornou-se realidade e instalou-se entre nós a Academia Capelense de Letras e Artes nos mesmos trilhos da Escola platônica e ancorada na crença cabal de que o conhecimento torna os homens melhores e aperfeiçoa a sociedade.

Esse é o destino deste sodalício. Estamos numa embarcação que flutua sobre águas movimentadas pela liberdade de pensar, pela firmeza da crítica, pela beleza da criatividade, pelo apreço ao conhecimento e tudo isso navegando em direção ao porto de uma Capela mais ética, justa; uma Capela mais zelosa com o seu nome; uma Capela que seja lembrada em virtude dos seus filhos ilustres – tantos feito areia da praia – e não por má conduta ou páginas policiais; almejamos alcançar o porto de uma Capela feliz, próspera, republicana, pacífica e cada vez mais humanitária. Esta casa devotada às Letras e às Artes é teatro no qual a palavra é protagonista e nós somos apenas seus coadjuvantes; é também tenda da linguagem; é lugar de poetas e de pastores. Pois, o que são poetas e pastores se não arquitetos de palavras, “operadores” de linguagem?

Arcângelo Buzzi afirma, “na linguagem, o ser humano efetua toda a sua existência no mundo: é poeta que escuta e ouve e é pastor que cuida e administra; pastor, na medida em que for poeta; poeta, na medida em que for pastor” (BUZZI, 1987, p. 16). Ora! Como poderá manifestar a saudade o poeta sem utilizar-se da palavra? Como poderá cuidar, ensinar, erigir seu canto, orientar as ovelhas, apontar o caminho o pastor sem utilizar-se da palavra? Escreve o ilustre confrade Ismael Pereira na sua obra Poemas,

“A palavra é uma adaga afiada,

Faca amolada nos dois lados,

Bem entendida ou mal-entendida

Constrói ou destrói,

Pode ser rosa que perfuma,

Ou rosa radioativa de Hiroshima,

Escudo que protege

Ou farpa pungente que fere,

É paz ou guerra,

Assim é a palavra” (PEREIRA, 2018, p.19)

Portanto, senhoras e senhores, embriagado pela palavra que une o efêmero ao eterno, que liga os humanos a Deus, que faz a ponte entre o perecível e o atemporal, com a alma tomada de alegria, o espírito exultante como se entre as Musas celestes estivesse, em nome da Academia Capelense de Letras e Artes, esta criança que outrora engatinhava, mas que aprende já a dá seus primeiros passos, saúdo, cumprimento, estendo guirlandas de flores no tapete das boas-vindas e abraço calorosamente os novos imortais Ana Lúcia Gomes da Silva, Isabel Cristina Santana Campos, Maria Otília Cabral Souza e Matheus Luamm Santos Formiga Bispo. Ilustríssimos novos confrades, sob as bênçãos da Virgem da Purificação, os cuidados e sabedoria de Deus evoco-os: mergulhem conosco nesse Oceano de palavras, juntem-se a nós na tenda da linguagem, sejam conosco poetas e pastores. Bem-vindos e muito obrigado!

 

REFERÊNCIAS

BUZZI, Arcângelo R.. Introdução ao pensar. Petrópolis: Vozes, 1987.

LIMA, Zozimo. Variações em fá sustenido. Aracaju: Triunfo, 2002.

PEREIRA, Ismael. Poemas. Aracaju: J. Andrade, 2018.

REALE, Giovanni. História da filosofia: filosofia pagã antiga, v. 1. Tradução Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003.

SANTOS, Denilsa de Oliveira. Mulheres Capelenses em Destaque. Aracaju: J. Andrade, 2018.  

 

 

   

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