2019 Domingos Pascoal

Aracaju, Sergipe

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Casamento - Por Graça Melo

12/07/2019

Um casal, de cerca de dois anos de união conjugal, achava que não dava mais para continuar o matrimônio, por isso resolveu consultar um causídico muito conceituado.

 

_O que os traz aqui, nesta ensolarada manhã de primavera? Pergunta-lhes o advogado.
_ Doutor, eu minha mulher, depois de muito refletir, chegamos à conclusão de que somos muito diferentes, temos hábitos muito particulares, de cada um, e não podemos mais viver juntos.
_ É veRdade, doutor, falou a esposa.

 

O advogado tinha uma verve extremamente conciliatória. Preferia não receber honorários a ingressar com uma ação de separação judicial. Achava que trocar de parceiro, em regra, seria trocar de problema, por isso a decisão de ingressar em juízo para consagrar uma separação era por demais equivocada. E concluía: - Para mim, separação é medida extrema. Deve ser uma exceção, mas, nos dias de hoje, parece até a regra. Alguma coisa deve estar errada. Vou tentar consertar. E assim ele procedia em relação a todos os casais que o procuravam para os trâmites de uma separação.

 

 E, nesse dia, o advogado estava muito inspirado. De bem com a vida, tudo correndo como pedira a Deus. Concentrou-se. Contou de um a dez, silenciosamente, e perguntou, a seguir, ao jovem casal:

 

- Meus jovens, sei que vocês são pessoas de famílias bem estruturadas.
Seus pais lhes deram uma formação das mais desejadas, são pessoas muito bem sucedidas profissionalmente, por que, então, no amor está esse desencontro todo?
- Doutor, disse o marido, não aguento mais as reclamações de Nirinha. Ela se aborrece com tudo o que faço em casa. Acha-me um desorganizado. O que mais nos incomoda é o banheiro. Gosto de ficar no banheiro horas e horas. Ela reclama porque passo muito tempo trancado no banheiro. E reclama mais ainda porque deixo o banheiro todo molhado e a tolha em cima da pia. Eu sou mesmo desorganizado e me esqueço desses pormenores.
_É isso mesmo, doutor! Odeio pessoas desorganizadas, pessoas que não lavam as mãos quando saem do banheiro; pessoas assim como o meu marido, jogadas. Gosto de tudo feito com a máxima perfeição e não admito nada fora do lugar. Mas o que me incomada mesmo é o banheiro moralhado. Acho um horror!
_E vocês ainda gostam um do outro como no tempo de namoro, nos primeiros anos de casamento?
_Claro, doutor. Eu e Nirinha nos adoramos. Mas não queremos viver sob o mesmo teto. É muito complicado, respondeu Isidro.
_Ele está falando a verda, doutor, nós brigamos o tempo todo por essas coisas que entendemos fora de nossa maneira de ser. E ele também não me ajuda na cozinha. Quer tudo na mão, como se não tivesse condições de arrumar uma mesa, fazer sua própria comida, seu café. Não lava uma xícara, tenho eu de fazer tudo.
Doutor, ele é muito folgado. Imagina, Doutor, ele assim e gente com filhos,? Creio que não suportaria.


O doutor era um expert em resolver esses problemas de casais, que, na verdade, não eram problemas, eram pequenos detalhes que vinham sendo enfrentados por aquele casal ao longo da vida matrimonial. Enfim, era uma novidade com a qual eles poderiam viver, desde que admitissem o quanto deveriam renunciar, porque vida a dois é, em sua essência, compartilhamento e, no ato de compartilhar, a renúncia é inarredável. Viver a dois é saber resolver as pequenas querelas do dia a dia, num processo de compreensão e doação. E isso é possível, quando agimos com placidez e sensatez e, o que é mais importante, quando amamos o outro e queremos sua felicidade.

 

Pois bem, com toda a sua experiência de vida, falou o advogado:


- Meus jovens, vocês ainda carregam a sensação do primeiro olhar.
Percebo em suas expressões faciais que alimentam o sonho de afagar um pequeno ser
a dormir no berço; de ouvi-lo chamar: Papai! Mamãe! Vocês, com certeza, pelo que pude observar, ainda sentem o calor de suas mãos e a quentura de um desejado beijo, dentre muitas outras coisas boas que vocês têm consigo e podem lhes dar muitas alegrias, muitas felicidades.

 

Mas não estão sabendo a essência da vida a dois. Desta, a primeira coisa é o diálogo. Conversem, digam um para o outro o que pode mudar, o que pode ser melhorado.
E perguntou: - Dona Nirinha, por que banheiro molhado tanto a incomoda? Um pano de chão não o secaria em fração de segundos? É um esforço que, a meu ver, a senhora poderia despender, pois evitaria a irritação, a querela do banheiro molhado.


Pensando bem, acho que sim. E Isidro, não vai fazer nada? Não deixou de perguntar Nirinha, mesmo porque se ela não fizesse essa clássica pergunta, sairia dali com essa indagação entalada em sua garganta, como um pedaço de batata posto em porção maior que a passagem desse alimento.


Doutor Holmo, com aquela paciência de Jó, respondeu:


_ Claro que o senhor Isidro vai ter de fazer a parte dele, pois em todo bom relacionamento as pessoas são proativas e solidárias. E, em se tratando de casal, a regra é compartilhar a todo instante. E, dirigindo-se a Isidro, pergunta o causídico:
_ Senhor Isidro, que tal um curso de culinária, aliás, para homens criaram o pomposo nome de Gourmet. O senhor estaria disposto a fazer um curso de Gourmet para ajudar com muito conhecimento de causa sua mulher na cozinha?
_ Claro, doutor, sempre tive vontade de aprender a cozinhar. Muitos amigos meus têm orgulho de saber fazer um bom prato. O problema é que fui criado sempre ouvindo de meu pai que homem não fazia nada na cozinha, que era coisa de mulher.
Assim eu achava que tudo tinha de ser feito por Nirinha, minha esposa.
_ A nossa formação está assim mesmo, senhor Isidro, com muitos equívocos. Mas está mudando para melhor, graças a Deus, disse o advogado, sem maiores polêmicas.
O problema do banheiro molhado, o que poderia o senhor fazer para evitar essa situação que tem gerado tanta insatisfação à sua esposa? Perguntou o advogado, esperançoso em ouvir uma boa resposta com proposta de uma eficaz solução.
_ Dourtor, esse meu hábito é tão antigo que não posso garantir nada, mas vou tentar. Eu e Nirinha podemos juntos encontrar a melhor forma de resolver esse problema que tanto nos desestrutura.
_ Meu jovem e distinto casal, pelo que percebo, vocês se amam, vocês sentem a importância de cada um, mas não lhes ensinaram a viver num lar que vocês ainda estão formando. Que tal tentar viver essa nova vida que escolheram por mais algum tempo, depois podem retornar, sem pagar nada, para me dizer o resultado, aconselhou o advogado. Isidro e Nirinha olharam-se longamente e depois de alguns minutos, disseram para o advogado que aceitariam a proposta. Iriam tentar viver casados mais algum tempo, pois até aquele momento vinham se comportando de forma muito inconsequente, sem saber ver as coisas como deveriam encará-las. Iriam, sim, tentar uma vida de verdadeiro compartilhamento e tentariam ingressar num mundo de renúncia e de muita compreensão e doação.


Saíram de mãos dadas, com ares de felicidade, como se o casamento estivesse a começar.
O advogado tentou esconder do Secretário uma lágrima de emoção e de sentimento do dever cumprido.


Passados longos dez anos, de repente, ver o advogado um casal já não tão jovem, a conversar alegremente e vindo em direção ao seu escritório, cada um deles segurando a mão de uma criança. A mulher segura a mão do menino de cerca de nove anos. O homem a segurar a mão de manina de sete aninhos. Duas lindas crianças.


Bom dia doutor, aqui estamos novamente, mas desta vez, para lhe dar boas notícias, falou Isidro.

O advogado olhou detidamente os dois e os reconheceu. Recebeu-os com alegria e os convidou para sentar-se. Ofereceu-lhes água e café, depois passou a perguntar sobre os acontecimentos dos últimos dez anos, e principalmente sobre a consagração de sua vida a dois. Uma vida premiada com duas lindas crianças.


Isidro disse ao advogado que a visita ao seu escritório, ocorrida dez anos atrás foi mais importante do que muitas outras reuniões que tivera com outros profissionais. Naquela ocasião, os dois perceberam o quanto estavam equivocados, mas isso somente foi possível porque tiveram a sorte de entrar em contato com uma pessoa de muita sabedoria, profissionalismo e humanismo, que não estava a pensar somente no seu próprio sucesso, mas no bem estar dos outros. E acrescentou:


_ Doutor, aquela conversa que tivemos aqui, com o senhor, foi a melhor coisa que aconteceu para melhorar o rumo de nossas vidas.
Concordo plenamente com meu marido, doutor! O senhor é uma pessoa iluminada que iluminou nossas vidas, fez com que mudássemos nossa maneira de ver as coisas, contribuiu para que sepultássemos nossos defeitos de formação da nossa personalidade, nos fez ver que poderíamos ser bem melhores, nos ensinou a viver em sociedade conjugal, numa vida familiar harmoniosa. Hoje formaos um lar, uma família feliz.


O advogado com os olhos embevecidos de lágrimas por força da imensa emoção ao ouvir tudo aquilo, perguntou e como resolveram tanta coisa? A bondade está em vocês. E o banheiro molhado, como resolveram aquele problemão?


Irina respondeu: _ Quanto ao banheiro molhado, doutor, ainda continua assim. Nisso Isidro não mudou. E, por vezes, nós dois o deixamos molhado. Descobri que é apenas um banheiro molhado. MUITO OBRIGADO, DOUTOR!


Em 06.07.2019. Por Graça Melo

 

 

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