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Os cristãos e a crise ecológica mundial - Por Antônio Orion Paiva

05/08/2019

Nos últimos anos, o mundo se deu conta da crise ambiental e, na busca das causas e de uma solução para o problema, alguns ecologistas passaram a atribuir ao cristianismo a culpa, ou seja, a responsabilidade cultural pelo descaso para com a natureza. E, nessa perspectiva, na medida em que a religião é responsável pela crise, é igualmente de sua responsabilidade o dever de achar uma solução. E, para isso, o ponto de partida seria uma inevitável mudança no procedimento religioso, talvez uma “remistificação da natureza e uma atitude biocêntrica”. 
  

 Para Lion White, o iniciador dessa polêmica, o judaísmo e o cristianismo introduziram uma concepção que se antagoniza com as religiões naturais, ao contestar sua maneira repetitiva e cíclica de enfrentar o tempo. Essas religiões defendem a crença de que Deus criou o mundo, atribuindo a tudo uma ordem natural de princípio e fim. Já nas religiões naturais, reina a ideia do animismo, defensor da crença de que lugares, animais e plantas têm seus espíritos e que, por isso, para que haja qualquer intervenção na natureza, é necessário que se consultem esses espíritos.


    O cristianismo combateu essa ideia animista por considerá-la uma forma de paganismo, mas, por causa dessa posição, segundo os animistas, os espíritos das montanhas, dos rios, das florestas e dos animais foram expulsos, e a natureza ficou desamparada, sem a guarda de seus espíritos protetores. No idealismo cristão, como uma forma de compensação, esses espíritos foram substituídos pelos santos, argumento que não emplacou, uma vez que, na concepção animista, os santos não são seres naturais, são seres humanos que habitam os céus, não a natureza. 
    Apesar dessas diferentes posições, Write insiste em afirmar que a principal causa da crise ecológica tem origem numa doutrinação imposta à humanidade. Na concepção animista, o homem não ocupa lugar privilegiado na natureza, essa ideia é que origina um antropocentrismo que distingue o homem dos demais seres naturais. Ora, essa visão antropocêntrica credencia o homem a explorar, sem escrúpulo, a natureza e a sentir-se diferenciado dos outros seres vivos. Entretanto, para a doutrina cristã, só o fato de o homem ser feito à imagem e semelhança de Deus já o destaca dos outros e já lhe atribui um lugar de primazia na escala da criação.


Sabe-se, porém, que uma defesa coerente e legítima da natureza não se faz com suposições infundadas, tampouco com acusações e com caça aos culpados disso ou daquilo, faz-se, sim, é com o firme propósito de respeito à vida, aos seres vivos e a todos que habitam a Terra. Escusado é dizer que o que provoca agressões à natureza são os avanços descontrolados da tecnologia, os lixos industriais que poluem o ar e as águas, as grandes investidas imobiliárias que provocam os desmatamentos sem controle, sem falar naqueles que se ancoram no individualismo e que se arrogam o pretenso direito de apropriação dos recursos naturais. 


Por outro lado, convém salientar que esses problemas referentes à crise ecológica afetam todos os países sejam ou não sejam cristãos. É certo que a visão criacionista cristã pode ter contribuído, embora de maneira indireta, para o surgimento da ciência e da tecnologia, mas ela nunca orientou que, para a obtenção desses avanços, se depredasse a natureza. O inegável é que, nesse contexto, ciência e tecnologia aliaram-se a serviço da industrialização, satisfazendo a ânsia do liberalismo e do capitalismo na sua busca incontida do lucro, na sua conhecida prática de dominação da natureza. Isso é que constitui as causas básicas da crise ecológica que hoje aflige a humanidade e que o mundo científico procura atenuar ou, em situação mais radical, camuflar.


O pior é saber que os grupos exploradores são tão inescrupulosos que promoveram seus domínios à sombra do cristianismo, devastando as terras colonizadas para extrair riquezas. No caso da América Latina, incluindo-se o Brasil, a natureza foi espoliada e explorada principalmente por aqueles que se diziam mensageiros da fé cristã. Usaram, portanto, a fé como escudo para depois acusar o cristianismo.


Assim sendo, urge que se tenha a coragem de enfrentar o desafio de repensar a teoria cristã da criação, numa perspectiva ecológica, revendo criticamente certas interpretações e atribuindo aos textos bíblicos um sentido que se coadune com a atualidade para que mais se ratifique a convicção de que respeitar a natureza é preservar a vida.

 
Antônio Orion Paiva


 

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