2019 Domingos Pascoal

Aracaju, Sergipe

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FUI E VI - Por Paulo Monteiro (Pimpão)

08/08/2019

Salvador, 6 de dezembro de 2016 

 

Na tarde de 4 de dezembro, percorri não sei quantos quilômetros, de Aracaju a São Miguel do Aleixo. Uma viagem por dentro de Sergipe, uma viagem por dentro de mim mesmo. Vi a paisagem multiforme, ora eriçada em elevações, ora descortinada em vales de placidez e conforto. No ocre da paisagem, as plantações de palma recuperam, no fundo do olhar, a memória do verde que sempre virá. Em São Miguel do Aleixo, no começo da noite cálida, no Clube Municipal, uma legião de mulheres e homens vestidos de negro repartiam a esmeralda retida no peito. Era o segundo aniversário da ACADEMIA DE LETRAS DO AMPLO SERTÃO SERGIPANO. Dentre eles, a figura de Domingos Pascoal, de cabelos esvoaçantes, lembrou – me um velho motociclista saído de um filme, percorrendo ínvios caminhos, para alcançar o lugar onde nasce o arco-íris. O professor Vasko, denodado cearense de Santana do Acaraú, homem de grande energia e saber, que veio plantar civilização em terras de Sergipe Del Rey. Li o seu Hino da ALAS, perfeita tradução de sua crença. Encontrei – me com Bezerra Lima, sobraçando o seu LAMPIÃO, a raposa das caatingas, obra definitiva do tema do cangaço, pesquisa pertinaz e pertinente da saga virgulínica, codificada na linguagem concisa e fluente dos grandes jornalistas. Um Homero nos confins do Brasil, diante da Troia nordestina, sitiada de carências e injustiças. Abracei Antônio Saracura, figura sacerdotal que traz nas mãos um Breviário: a obra mais viva do memorialismo sertanejo, distribuída em livros de indiscutível bom gosto, forjados na oficina de um magnífico contador de “causos” e histórias das gentes desses pagos. Para quem acha que nosso povo não gosta de filosofia, arte, música clássica, o professor Edivan Santos vem com o seu livro REFLEXÕES, em que o jovem filósofo desmistifica a linguagem sofisticada típica desses gêneros e a converte numa comunicação mais palatável e acessível a todos. Nossos caboclos logo mais estarão ouvindo Chopin e bebendo chopinho, sorvendo Nietzsche com cachaça, recitando Ferreira Gullar e debatendo o Existencialismo de Sartre. Meus louvores, professor – filósofo! O homem que pensa é uma dádiva. É como o pão compartilhado na mesa dos convivas! Nesse belo sertão, geográfico e metafísico, cruzam – se os destinos de homens e mulheres: uns arrancando da terra o milho, o feijão e a mandioca – sustento da vida; outros cultivando a palavra e construindo literatura – suplemento de existência. Acadêmicos e neoacadêmicos da ALAS, vocês quebraram a concepção e o formato das academias e arcádias convencionais, geralmente elitistas e congregadoras de vaidades inúteis e inoperantes. Vocês não são acadêmicos de poltronas fofas e de sedes suntuosas. São artesãos itinerantes que se ocupam em tecer a luz cujos raios vão tocando os que despertam. Nas palavras do poeta de A Educação pela Pedra, emerge a consciência que marca a alma e a trajetória de vocês: “Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito de um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos”.

 

Paulo Monteiro Pimpão – membro correspondente da Academia Sergipana de Letras

 

 

 

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