2019 Domingos Pascoal

Aracaju, Sergipe

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Discurso de posse dos novos acadêmicos da Academia Maruinense de Letras e Artes - Por Maria Lúcia Marques

29/11/2019

MARUIM, O RIO GANHAMOROBA E SUA GENTE: uma trilogia perfeita

 

            Por Maria Lúcia Marques Cruz e Silva
                    (Presidente - AMLA)

 

 

   No primeiro dia de aula, no Colégio Estadual Atheneu Sergipense, a professora Maria Augusta Lobão Moreira, passando os olhos nas folhas da caderneta de chamada, gostava de indagar a procedência de seus alunos. Decerto, uma prática corriqueira, com o intuito de fazer uma prévia avaliação, por saber que aquela tradicional Casa de Ensino recebe estudantes de diversos municípios de Sergipe e dos estados vizinhos.


   Ao ouvi-la pronunciar Maria Lúcia Marques Cruz (nome de solteira), levantei-me e falei com um certo orgulho, como sempre fazem os bairristas: eu nasci em Maruim, a princesa do Ganhamoroba. Na época, somente eu sabia do valor histórico dessa cidade por ouvir, quase que diariamente, meu pai falar.


   Com todo respeito às pessoas nascidas em outras plagas desse Estado, acredita-se que os maruinenses foram os precursores do sentimento de amor pátrio que se denominaria SERGIPANIDADE. Mesmo as pessoas oriundas de famílias simples e desprovidas de Capital de Relação, no dizer de Pierre Bourdieu, em qualquer lugar que chegavam, exibiam o nome dessa terra como se fosse a própria identidade, ou mesmo um troféu.


  Na sala, alguns colegas sussurraram, mas deu perfeitamente para identificar: “terra de caranguejo”, “Lá só comem goré”. Alguns colegas nascidos em Itabaiana (cidade com boa representatividade) falaram: “Temos a serra mais bonita”. Nessa época, a política fervia e eles citavam orgulhosos os seus líderes: Euclides Paes Mendonça, Manuel Teles, Chico de Miguel, Antonio Torre, entre outros. 

   
   Com a insegurança própria da adolescência, comecei a enumerar fatos, figuras e alguns patrimônios ligados à História de Maruim: minha cidade sediou consulados e vice-consulados, é a única que ostenta um Gabinete de Leitura, tem o Parque Otto Schramm (onde funcionou o consulado alemão), a igreja matriz muito bonita, tem um relógio, que veio de Hamburgo; o Grupo Escolar Padre Dantas, onde cursei o primário, parecia um palácio; em Maruim nasceu e viveu muita gente que se destacou em níveis internacional, nacional e regional.


Com entusiasmo, citei a família Schramm, o Barão de Maruim, Deodato Maia, Alberto Deodato Maia Barreto, Alberto Campos, Cleômenes Campos e outros, buscando subsídios em defesa da amada terra e o orgulho de tê-los como gente daqui. No curso ginasial (atual Ensino Fundamental), a professora Maria Auxiliadora Paes de Santiago exigia estudos biográficos dos intelectuais maruinenses, por isso, eles estavam fresquinhos na mente. 

 
   No segundo dia de aula, a mesma mestra no Atheneu, na hora da chamada, ao falar os nomes dos alunos, fazia referências aos familiares deles, enaltecendo a genealogia de alguns. Lembro que na página anterior à minha estava um aluno que ficaria conhecido no meio político sergipano: Luiz Antônio Mitidieri (da cidade de Boquim). Ao pronunciar esse nome, a mencionada educadora se expressou com admiração: “Você é filho do Dr. Bernardino”? Ela demonstrou satisfação em ser professora do filho de uma pessoa conceituada. Na verdade, aquele jovem não carregava somente o peso de ter um pai médico e político famoso, mas também por ser filho de outra figura que merece similar distinção. Trata-se da devotada professora Vanda Mitidieri (sua mãe). Era comum, naquela época, os professores, até no ensino superior, fazerem de público  deferências à linhagem familiar de seus pupilos.

 
   Na sequência, após ecoar Maria Lúcia Marques Cruz, mesmo sem ela perguntar quem era meu pai, meio encabulada falei: Eu sou filha do barbeiro Adalberto Cruz. Remetendo-se para o agora, é ele que, de forma digna, é o patrono da cadeira que ocupo. E o escolhi não apenas porque se trata de um pai biológico, mas, sobretudo, por ter sido o grande incentivador para estudar Maruim.


   Caso essa situação, acontecesse nos dias atuais, com certeza, além dos nomes já elencados como signos de uma das cidades mais importantes da região Cotinguiba e de Sergipe, acrescentaria nomes das pessoas escolhidas para batizar as cadeiras da AMLA. Compõe o seu sodalício uma plêiade de cidadãos que enobrecem o nome dessa agremiação, dos próprios acadêmicos, da cidade de Maruim e, com certeza, do Estado de Sergipe.


   A começar pelo patrono geral da AMLA, o Comendador João Rodrigues da Cruz, patrocinador do GLM, em 1877 (prova inconteste da grandeza intelectual de Maruim) e do Instituto Cruz (1902). Esta foi uma das primeiras escolas de Contabilidade de Sergipe, devido ao florescente comércio com firmas importadoras e exportadoras. João Rodrigues, em companhia do irmão, o médico Dr. Thomaz Rodrigues da Cruz, ambos procedentes de Londres e Paris, escolheram morar em Maruim, no ano de 1875, por ser uma cidade de boas perspectivas econômicas. A família Cruz, de onde descende a benemérita Maria da Cruz Prado (Dona Marieta das Pedras, esposa do Coronel Gonçalo), muito colaborou em projetos socioculturais em Aracaju, a exemplo da Fundação Manuel Cruz, que fez nascer o Hospital São José. 


   Décadas depois, os irmãos Cruz impulsionaram o progresso do Estado, por terem visão empreendedora. João Rodrigues e Dr. Tomaz saíram de Maruim para instalar em Aracaju a primeira Indústria Têxtil de Sergipe – A Sergipe Industrial – em 1882 (hoje Parque Shopping Aracaju do nosso confrade Albano Franco). 


   Sabe-se que, inicialmente, essa fábrica foi programada para produzir sacos de aniagem para atender à grande demanda da produção açucareira de Sergipe, que era exportada até para a Europa. Após a morte de João Rodrigues (1884), a fábrica passou a ser administrada por Dr. Thomaz Cruz, José Augusto Ferraz e seu filho Thales Ferraz, engenheiro têxtil formado em Manchester, na Inglaterra.


    As águas do Rio Ganhamoroba, sua flora e fauna características testemunharam os faustos anos dessa região, cujos saveiros, abarrotados de sacos de açúcar, foram cantados e declamados pelos escritores locais. Entre os poetas cita-se Cleômenes Campos, que teve obras premiadas em concurso da Academia Brasileira de Letras, na década de 1920).


  No tocante à localização geográfica de Maruim, o médico alemão Robert Christian Barthold Avé-Lallemant (1812-1884), quando aqui passou em 1859, assim se referiu: “É impossível acreditar como é que fundaram uma cidade entre os rizóphoros”. Isto é, dentro do mangue. O olhar clínico desse cientista registrou em seu diário plantas (begônias trepadeiras, solanáceas, cana floridas). Citou a igreja da Boa Hora e, bem perto dalí, a casa dos Schramm, que ficava na entrada da cidade. 


    Realmente, Maruim emerge ornada pelo manguezal, com espécies vegetais desse ecossistema (Lagunculárias, Avicênias e a clássica Rizóphora mangle). Esta planta, a mais conhecida, exibe raízes escoras, que servem de substratos, onde se fixam as larvas de ostras até a fase adulta. Servem de palco aos gorés e caranguejos, quando estão de andada, prestes a alimentar a população, independentemente de classe social. 


   Senhoras e senhores, que nos honram aqui com suas presenças, os colegas do Atheneu estavam corretos. Quem nasce nessa terra tem a felicidade de poder degustar não apenas o caranguejo e o goré, mas o camarão, a ostra, o sururu. Entre as espécies presentes da ictiofauna (peixes), tem-se a curimã (preferida do pai), Milongo e o Miroró. Este, com certeza, auxiliou a escolha da toponímia do rio, que banha a querida terra. 


     Discordando do insigne tupinólogo Dr. Theodoro Sampaio, há evidências de que o nome desse afluente do Rio Sergipe foi originado do peixe (Miroró). Ganha (quer dizer recebe) mais a palavra Miroró (que deu moroba) resultou no verbete Ganhamoroba e não do guaiamu, como afirma o mencionado pesquisador. Isso porque o peixe depende do meio aquático para viver e reproduzir, e o guaiamu cresce no apicum. É impossível dissociar o habitat das espécies que o identificam. Assertiva que se aplica também à espécie humana.
Para exaltar a população maruinense, escreveu o poeta Freire Ribeiro, em 1954, por ocasião do Centenário da cidade: “Glória a ti Maruim altaneira/Que se orgulha de ter essa grei/ Os teus filhos varões denodados/Os titãs de Sergipe Del Rei.    


   A cidade de Maruim gerou em seu ventre e adotou tantos filhos, que até perdeu a conta. São homens e mulheres do passado, que honram as gerações de hoje e do amanhã, por isso foram eleitos patronos das cadeiras que compõem o sodalício da AMLA. Nesse singular gradiente de personalidades que aqui nasceram e viveram, cabe salientar: 


-Des. Joel Macieira Aguiar, patrono da cadeira nº 1 -(atualmente vaga).
-Cônsul Otto Schramm, patrono da cadeira N. 2, -   ocupada pelo acadêmico Hefraim Vieira de Andrade. 
-Profa. Mª Izabel Barreto, patrona da cadeira N. 3 - ocupada pela acadêmica Janyne Rossana Barbosa Feitosa Costa. 
-Aureliano Queiroz, patrono da cadeira N. 4 – ocupada pela acadêmica Clea Brandão, sua neta. 
-Evangelista Florença Pereira, patrona da cadeira N. 5 –   ocupada pelo acadêmico Ermerson Porto Santos.    
-Médico Dr. Thomaz Rodrigues da Cruz, patrono da cadeira N. 6, que é ocupada pelo acadêmico Eduardo Bittencourt,
-Barbeiro e memorialista Adalberto Cruz, patrono da cadeira N. 7 - Ocupada por Maria Lúcia Marques, a quem agradeço, os insistentes reclamos, pois foram a maior motivação para conhecer uma das mais belas trajetórias citadinas.
-Profa. Josilda de Melo Dantas, patrona da cadeira N. 8 - ocupada pela acadêmica Joelma Ferreira Martins Santos. 
-João Gomes de Melo – Barão de Maruim, patrono da cadeira N. 9, que é ocupada pelo acadêmico, conselheiro do Tribunal de Contas, Dr. Carlos Pinna de Assis. 
-Deodato Maia, patrono da cadeira N. 10, ocupada pelo acadêmico Guilherme da Costa Nascimento. 
-Promotor Dr. Paulo Costa, patrono da cadeira N. 11, que é ocupada pela acadêmica, Desembargadora do TRT, Dra. Maria das Graças Monteiro Melo. 
-O agente de Estatística Abdias Batista e Silva, patrono da cadeira N. 12, que é ocupada pelo acadêmico Everardo de Sena e Silva (seu filho)


Compõem também essa Agremiação membros Honorários, Beneméritos e correspondentes, a saber:


-Domingos Pascoal de Melo – Presidente de Honra da AMLA- um confrade amigo e presente nas atividades dessa agremiação. 
-Jouberto Uchôa de Mendonça (patrono - Alberto Deodato)
-João Gomes Cardoso Barreto (Patrono -Josias V. Dantas)
-Salete da C. Nascimento (Patrono -Afonso de M. Chave)
-José Anderson Nascimento (Patrono-Luiz Antônio Barreto)
-Dênio Azevedo (Patrono-João Pereira Barreto)
-Aroldo Firpo Andrade (Patrono-João Firpo Filho 
-José Luiz da Silva (Patrono-José de Freitas Leitão)
-Paulo Góis da Silva (Patrono- Aurélio Azevedo Barreto)
-Luciano J. dos Santos (Patrono-Joaquim José de Santana)
-Edileuza Santos Santana (Patrono-João Vieira dos Santos)
-Francisco Prado Dantas (Patrono-Alcebíades V. Dantas)
-Helmar Maynard de Faro (Patrono-Durval da C. Maynard)
-Edivaldo Vieira Messias (Patrona Mª das Dores V. Messias)


HOJE SE SOMAM NOVOS PATRONOS, COM AS POSSES DOS RESPECTIVOS ACADÊMICOS:


-Gonçalo Rollemberg do Prado, patrono da cadeira N. 13, que será ocupada pelo acadêmico governador Albano do Prado Franco. 
-Maestro Joaquim José de Santana, patrono da cadeira N. 14, que será ocupada pelo também maestro Beethoven Sales de Assis,
-Felipe Tiago Gomes, patrono da cadeira N. 15, que será ocupada pelo professor Gilson Santos de Paulo.
-Jornalista Jurandir Santos, patrono da cadeira N. 16, que será ocupada pelo também jornalista Lohan Muller
-Padre Antônio Leonardo da Silveira Dantas, patrono da cadeira N. 17, que será ocupada pela professora Mestre Maria Amélia Silva Santos
-Profa. Maria da Glória Menezes Portugal, (GLORITA PORTUGAL) patrona da cadeira N. 18, que será ocupada pela biblioteconomista Maria Lolita Bomfim

 

   Como o mais novo membro honorário da AMLA, cabe citar João Barbosa Pereira (da Academia Maçônica de Alagoas), e pai da confreira Janyne Barbosa. Ele, antes de ingressar na academia de Maruim, deu gratuitamente consultoria jurídica, elaborando o estatuto da AMLA, recém-aprovado e registrado no cartório de Maruim. Receba confrade, os cumprimentos de gratidão de todos que fazem essa academia.


  Essa Associação literária, que tem como presidente de Honra Domingos Pascoal de Melo, reconhece o quão ele tem se devotado em prol das academias de letras de Sergipe. Esse incansável acadêmico da ASL tem se esforçado para estar presente em todas as cidades, por ocasião dos eventos literários. Pascoal já chegou a Maruim, demonstrando cansaço físico, por sair direto de outros compromissos da cidade de Itabaiana e daqui já foi diversas vezes para o sertão e Baixo São Francisco. Isso em reuniões mensais. Obrigada, amigo, por ser tão presente. Sei do seu amor pela causa que defendes e também do carinho especial que dedicas às terras maruinenses.


  Já foi dito que “Sergipe e sua capital Aracaju muito devem a Maruim”. Essa cidade tem peculiares características fisiográficas. Ela carrega uma aura singular que fascina e faz transbordar emoções, arrastando para o seu seio pessoas de diferentes idades e estratos sociais. O escritor maruinense, o jurista Alberto Deodato, demonstrando um acendrado amor pátrio, publicou: Paris, Nova Iorque e Maruim.

 
   Essa terra tem uma magia inexplicável, até mesmo nos momentos de dificuldades e atribulação. Quando o rio Ganhamoroba resolve abraçar a cidade nas históricas cheias que causam prejuízo e destruição, serviu de fonte inspiradora para o estudante Tauã Ricardo de Souza Soares. Ele ganhou o primeiro lugar (Prêmio de Hum mil reais doados pela família Firpo), no I Concurso Literário da AMLA, em 2018, com o poema: A ENCHENTE.


   Esse estudante do Colégio Municipal São José conta um pouco das agonias do povo, em 28 de maio de 2008, quando o rio transbordou causando estragos nas residências, que ficam nos locais mais baixos. Fala da importância do apoio que recebeu do prefeito Jeferson Santana. E Tauã finalizou o que sentiu naquele dia inesquecível: “Em meio às aflições que não se espera passar/ Sabe-se que a vida é assim/ Com enchente ou sem enchente/Eu não deixo Maruim”. Parabéns mais uma vez, caro estudante. Você e seus colegas serão o futuro da AMLA.


    No espectro da História de Sergipe, Maruim, o rio ganhamoroba e sua gente são sinônimos. A jovem estudante que frequentou o Atheneu na década de 1960 não se abateu quando disseram, em tom pejorativo, que ela só comia caranguejo e goré. Além da própria terra natal, esses exemplares da natureza são tão inspiradores que foram, no passado, imortalizados na poesia de muitos escritores, a exemplo do jurista maruinense Alberto Deodato: 
 “Na baixa mar eu vadiava o rio. Atolava-me no seu leito vazio, sol a pino, pegando caranguejo escondido no lamaçal. Não foi só o rio que fez os encantos da minha juventude, foi toda minha cidade bonita”.
Obrigada

                 MARUIM, 27 de NOVEMBRO de 2019

 
 

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